Pitada
do especialista
por Marcio BambergConsegui
o meu primeiro emprego e?
Ao apresentar-se para trabalhar, como conciliar a humildade da
inexperiência e a vontade de mostrar o que aprendeu na universidade. O estágio ou o
programa de trainee serve para que eu aprenda o que pretendem me ensinar ou espera de mim
que eu exponha meus conhecimentos?" Essa dúvida é uma das mais frequentes quando
se chega ao mercado: como dosar conhecimento e aprendizado no começo da carreira. Quando
terminam a fase de estudos, muitos jovens profissionais acreditam ser "donos do
mundo". Pensam: "Finalmente vou colocar em prática todos aqueles conhecimentos
adquiridos". Bom, aí começam os problemas!
Os empresários contratam novos funcionários com o propósito de revigorar a
companhia. Querem que os trainees e estagiários de hoje assumam os postos de comando de
amanhã, num processo contínuo de renovação. Do total de recém-formados que ingressam
numa empresa, será preciso escolher aqueles que, submetidos aos sistemas de seleção e
triagem, apresentam melhor desempenho e aparente capacidade de adaptação ao perfil da
organização. E, aí, quem leva vantagem? Aquele que demonstra interesse em aprender ou
aquele que contribui?
O assunto é debatido de maneira torta pela maior parte dos envolvidos. As empresas
dizem que os jovens podem interferir decisivamente nesse processo, mas não é exatamente
assim. As faculdades sugerem até mesmo que os jovens têm meios de aprimorar métodos de
gestão com aquilo que aprenderam nas aulas, o que, definitivamente, também não é
verdade. A única resposta razoável nesse caso é a posição mediana, aquela que tende
ao equilíbrio.
Jamais deixe que o tema se resuma a uma opção entre duas alternativas. O mercado não
quer alguém que chega se impondo, mostrando o que pode oferecer. Ele prefere aquele que
vai com mais calma, que revela vontade de aprender. Não conheço ninguém que tenha
contratado um profissional recém-formado esperando a solução de seus problemas, mas sim
a energia que se apresenta na disposição para enfrentá-los. Vale mais quem está a fim
de correr riscos, tem curiosidade e inquietação, apresenta capacidade de
"apreender", abertura intelectual, agressividade positiva, segurança pessoal. A
chave é uma mistura, muito bem balanceada, entre conhecer a empresa e dar a ela não
ensinamentos teóricos ou práticos, mas sua inesgotável capacidade de trabalho.
Por que não se deve perder tempo em querer ensinar alguma coisa à empresa? É
simples, basta lembrar que a grande maioria das escolas vive distante da realidade do
mercado e dos avanços tecnológicos. A academia se informa sobre as últimas novidades em
geral quando elas são publicadas em revistas especializadas ou mesmo em livros
sabe-se lá com que atraso. E o que dizer do corpo docente das escolas? Há muito tempo,
alguns professores não pisam no chão da fábrica, no campo, no hospital. Seus
ensinamentos podem estar tão desatualizados que os "futuros chefes" tendem a
ficar chocados com o que dizem os recém-formados.
Pode soar estranho, mas os jovens, nesse caso, apresentam aos chefes (mais velhos,
sempre) ideias antigas. Nos casos mais radicais, o choque de quem quer aplicar na empresa
o que aprendeu na academia pode ser inesquecível. O recém-formado estará levando
consigo ideias cultivadas num tempo em que o Brasil tinha uma economia fechada,
protegida, regulamentada. Naquele país, o provincianismo vencia o cosmopolitismo, e a
carreira era gerenciada pela empresa. Estabilidade era a palavra-chave, vivia-se a época
de fidelidade às regras (submissão) e o paternalismo rondava o poder. Como alguém com
essa formação pode ensinar alguma coisa na empresa?
Aproveite o período do estágio para construir uma visão completa sobre a chamada
"cultura da empresa". E também para descobrir em quem se pode confiar. Pergunte
muito: perguntas provocam reflexão e lubrificam o raciocínio.
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Fonte: http://www.marciobamberg.com.br |