Pitada do especialista
Por Por Herbert M. Greenberg,
Ph.D., José Geraldo Recchia e Ana Cristina Artigas Santos(*)Perfil do Líder Brasileiro
"Gerentes fazem certo as coisas. Líderes fazem as coisas
certas."
Warren Bennis
A Caliper, consultoria em recursos humanos, com sede em Princeton, NJ - EUA, com
atuação global, vem realizando inúmeros estudos a partir da avaliação de milhares de
executivos ao longo dos últimos 41 anos, os quais lhe permitiram identificar
características e atitudes que diferenciam Líderes de Gerentes.
Descobrimos que Gerentes focamse em resultados, comandam, expressam suas
opiniões e, em geral, são seguidos porque são chefes. Líderes, por sua vez, buscam
atingir seus resultados por meio das pessoas, inspiram, ajudam a formar opiniões e são
seguidos porque acreditamos neles. Líderes são iniciadores, influenciadores e
motivadores. São características que fazem muita diferença dentro das Organizações.
Como disse um de nossos clientes: Líderes criam a visão. Eles são
inspiradores. Eles não somente dão a direção para onde ir, mas criam a
música, orquestram os recursos e criam ambientes onde novas realizações
podem florescer.
Isto não quer dizer que todos nós não possamos, em um determinado momento, ser
capazes de prover direcionamento a outras pessoas. Acreditamos que todos nós podemos nos
deparar com uma situação na qual descobrimos nossa capacidade de liderar um grupo de
pessoas, como em uma situação de emergência, conduzindo pessoas para fora de um
incêndio, por exemplo. Todos nós possuímos a capacidade de liderar em algumas
situações.
A diferença para os verdadeiros Líderes, no entanto, é que liderança é parte do
que eles já são. Liderança faz parte do caráter e estilo pessoal deles
representa um sentido e objetivo de vida.
Em um estudo feito recentemente pela Caliper Brasil, em parceria com a HSM, 223
CEOs e Diretores brasileiros completaram nosso instrumento de avaliação denominado
Perfil Caliper, permitindo-nos identificar as características deles em termos de
liderança e gestão de pessoas. Os resultados que iremos apresentar, além de traçar o
perfil desses Executivos, fornecem aos leitores uma idéia do que se deve procurar nos
jovens profissionais, para que possam, assim, reconhecer aqueles que possuem potencial
para exercerem papéis de liderança no futuro.
Quando analisamos os pontos fortes de personalidade dos Executivos avaliados,
apresentados no gráfico acima, constatamos que eles são persuasivos, possuem um bom
nível de ego-drive, ou seja, capacidade de convencer e motivar outras pessoas. Por isso,
são bons ao influenciar e dirigir aqueles com quem interagem, levando-os a pensar como
eles e mantendo-os motivados em torno de objetivos comuns. Além disso, são assertivos,
capazes de transmitir orientações com clareza e garantir que sejam compreendidos por
suas equipes de trabalho. Em geral, mantêm com convicção seus pontos de vista e são
firmes ao lidar com críticas. No entanto, nem sempre são cautelosos e, por isso, podem
ficar mais propensos a cometer erros, porém, são capazes de revertê-los e fazer deles
um degrau para o seu desenvolvimento e aprendizado, graças à flexibilidade e à
auto-estima (força do ego) que possuem. Arriscam-se, experimentam o novo e, geralmente,
são ágeis na busca de resultados, considerando o senso de urgência que apresentaram.
Do ponto de vista de relacionamento interpessoal, os executivos avaliados mostram um
bom nível de empatia, o que indica que são capazes de entender as dicas sutis sugeridas
pelas pessoas com as quais estão se comunicando. Geralmente, colocam-se no lugar de seus
interlocutores, o que lhes possibilita escutar novas idéias e ajustar-se às necessidades
de seus pares, subordinados ou clientes. Por serem ousados e mais motivados por desafios
do que por reconhecimento, ou seja, não precisarem da aceitação por parte dos outros,
nem sempre lembram de elogiar, deixando, muitas vezes, de dar feedback às pessoas de sua
equipe. Por isso, podem beneficiar-se na medida em que controlem seu lado mais impulsivo,
a fim de acompanhar ritmos diferentes dos seus, lembrando sempre de elogiar em
público e criticar em particular. É importante salientar que se forem capazes de
aprimorar a percepção das habilidades e competências das pessoas com quem convivem e
trabalham, podem aproveitar melhor o potencial de cada um e valorizá-las.
Embora apresentem um nível de extroversão e sociabilidade medianos, quando entendem a
necessidade e a importância de se colocar em público, são capazes de se exporem,
estabelecendo um bom vínculo com as pessoas devido à empatia e à flexibilidade já
mencionadas.
Com relação à resolução de problemas, possuem uma tendência a serem perspicazes e
criativos, mas não muito analíticos para avaliar, com riqueza de detalhes, a raiz dos
problemas. Eles tendem a basear-se mais em seus instintos do que nas pesquisas
de fatos. Isso pode parecer benéfico quando estiverem elaborando planos estratégicos,
mas quando estiverem exercendo funções burocráticas/menos complexas, outras pessoas
poderão não apreciar o estilo não tão estruturado e detalhado de trabalho deles. Dessa
forma, a percepção destas pessoas, por parte da organização e em especial durante o
começo de suas carreiras, poderia ser a de que eles tomam decisões apressadas e de que
nem sempre são bem planejadas. Por buscarem incessantemente sucesso nos negócios,
apresentam uma predisposição a se arriscar, sem receio de tomar decisões. Entretanto,
estes empreendedores, que se arriscam, são freqüentemente as mesmas pessoas que criam
novas idéias e estabelecem novas metodologias, mostrando-se capazes de adentrar no
desconhecido e em caminhos nunca experimentados.
Por fim, o grupo de CEOs e Diretores, participantes da nossa pesquisa, apresentam
uma tendência a se motivarem com a variedade dos assuntos com que lidam no dia-a-dia,
mais do que por concluir trabalhos já iniciados, passando rapidamente de uma atividade ou
tarefa para outra. Como se sentem pouco confortáveis em ambientes muito estruturados e
não se prendem às regras organizacionais já estabelecidas, muitas vezes as questionam
no ímpeto de implementar um novo projeto. Essa necessidade de buscar o novo pode, em
muitos casos, ser vantajosa, contudo, poderá, em alguns momentos, levá-los a dar o
próximo passo sem estar de posse de toda a informação de que necessitam.
Este estilo autoconfiante talvez possa, mais uma vez, causar impacto perante as outras
pessoas da organização, especialmente quando estiverem apenas iniciando sua carreira na
companhia. De maneira geral, estes profissionais precisam ter em sua equipe pessoas que os
auxiliem na administração de suas agendas e organização dos papéis e fluxo de
trabalho.
Após a compreensão do modo de operar dos nossos executivos, podemos avançar na nossa
análise. Para tanto, solicitamos que os leitores observem a próxima figura, que
apresenta a comparação entre os perfis de Líderes e de Gerentes, segundo estudos
realizados pela Caliper nos EUA.
Considerando o que relatamos desde o início deste artigo, facilmente pode ser notada a
similaridade entre o Perfil do Executivo Brasileiro pesquisado, com o dos Líderes
Americanos. Podemos dizer, com isso, que este grupo tende, em sua maioria, a se comportar
muito mais como Líderes do que como Gerentes.
De fato, muitas das competências mencionadas na nossa análise, como: a capacidade de
influenciar e dirigir pessoas; de criar novos conceitos; de arriscar-se, experimentar o
novo e de ser ágil na busca de resultados, condizem com nossas afirmações iniciais de
que Líderes são iniciadores, influenciadores e motivadores. Líderes criam a
visão e são inspiradores. Outras características presentes na população
pesquisada, que são os níveis relativamente baixos de sociabilidade e a necessidade de
ser aceito, aparecem um pouco mais exacerbados na população americana de Líderes, o que
demonstra um pouco das nossas diferenças culturais. Todavia, como dissemos, isso não os
impede de se expor e de se colocar em público, quando entendem essa necessidade e
importância. Com relação à tendência a serem perspicazes e criativos, mas não muito
analíticos para avaliar a raiz dos problemas, deve-se ao fato de que Líderes estão mais
focados em questões gerais e em atingir resultados, do que em trabalhar com os detalhes.
Ainda, quando afirmamos que são capazes de buscar o novo e situações nunca antes
experimentadas, ou mesmo quando dizemos que apresentam uma tendência a se motivarem pela
constante variedade dos assuntos com que lidam no dia-a-dia, todos esses são traços que
caracterizam os Líderes.
A análise do Perfil do Líder Brasileiro demonstra que nossos Líderes
apresentam fortes características de personalidade, como: persuasão, que lhes permitem
influenciar e dirigir pessoas; senso de urgência, desejo de assumir riscos com ousadia;
assertividade, habilidade de expor de forma clara um ponto de vista; flexibilidade, para
ajustar-se a mudanças e força do ego (auto-estima), habilidade necessária para
mantê-los otimistas e resistentes às objeções, sem deixar que uma atitude errada ou
uma crítica eventual prejudique a próxima tentativa. Com isso, são capazes de se
recompor após uma rejeição, sem que deixem de atuar nas decisões que precisam ser
tomadas. Podem, no entanto, aprimorar ainda mais o seu perfil na medida em que
temperem suas ações com cautela, antes de experimentar o novo, adotando
atitudes mais criteriosas e avaliando com mais cuidado as informações, de forma que
possam ficar menos propensos a cometer erros.
Identificar e desenvolver Líderes é um dos maiores desafios que os executivos
enfrentam hoje em dia. Infelizmente, a maioria das empresas ainda possui a tendência a
sufocar seus Líderes em potencial.
É essencial reconhecer o potencial de Líderes futuros, treiná-los e desenvolvê-los,
deixando que se responsabilizem desde cedo por suas tarefas e desafios. As empresas
precisam reconhecer que o Líder em potencial de hoje poderá ser necessário amanhã.
Entretanto, ao julgarmos os atributos demonstrados pelos Líderes, talvez não
consigamos facilmente reconhecê-los em meio à força de trabalho. Por exemplo, no
começo de sua carreira, um forte Líder em potencial poderá ser visto como sendo
desorganizado e disperso, como mencionado anteriormente.
Como pode ser visto pelos resultados desta pesquisa, em organizações fechadas e que
não valorizem novas idéias, pode ser difícil para Líderes em potencial serem
reconhecidos e promovidos, especialmente em se tratando de um ambiente corporativo que
não necessariamente encoraje as pessoas a demonstrarem seus diferentes pontos de vista.
Líderes em potencial, pela sua própria natureza, poderão ser como um
espinho para seus Gerentes e incômodos para seus colegas de trabalho. No
entanto, uma vez que a habilidade desses Líderes para inspirar e motivar outras pessoas
for identificada, cabe à organização fazer uso dela para seu benefício, colocando-os
em posições nas quais possam maximizar seus potenciais. Ajudar Líderes em potencial a
usarem seus pontos fortes deve ser uma das metas e cuidados mais importantes que uma
organização deve ter, uma vez que são estas as pessoas que levarão suas equipes e a
empresa a alcançar com brilhantismo o futuro.
(*)Por Herbert M. Greenberg, Ph.D., Presidente e CEO
da Caliper; José Geraldo Recchia, Presidente Caliper Brasil e Ana Cristina Artigas
Santos, Gerente de Atendimento a Clientes Caliper Brasil. |