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Pitada
do especialista
por Flávia Lippi(*)Viver sem pressa
Sempre que a gente exige demais da gente mesmo,
voltamos aos antigos modos de pensar e reagir. Quando estamos muito cansados perdemos
totalmente a perspectiva e controle. Reagimos de maneira excessiva às coisas mais
simples, mais comuns e mais fáceis de resolver. Nos tornamos agressivos, frustrados e
desanimamos facilmente. Parece até meio paranóico. Sentimos que tem sempre alguém
perseguindo, querendo nos enganar ou querendo tirar vantagem. Eu tenho a impressão que a
fadiga, o cansaço mental, a vontade de parar e não conseguir, traz o pior das pessoas
para fora. É como uma válvula de escape. Fica aquele apito irritante nos ouvidos dos
outros e aquele vapor que não dá para enxergar nada pela frente.
É importante repensar o trabalho, as horas dedicadas, a escolha da profissão. Quando
o ritmo de trabalho é alucinante e começamos abrir mão das coisas mais serenas e mais
gostosas da vida, como passear num parque, viajar para uma praia, conversar calmamente com
seu amor, ver seu filho crescer, desenhar bichinhos sem nome, criar histórias para
dormir, sonhar com o amanhã, está na hora de repensar a vida. Está na hora de repensar
as prioridades. Quero me ver velhinha no colo de quem amo, fazendo um canteiro de flores,
escrevendo para meus amigos, lembrando de histórias que dividi com pessoas que me amam de
verdade. Para isso só existe uma saída. Viver de maneira abençoada, dividir
gargalhadas e lágrimas e definitivamente trabalhar sem fazer com que o resultado seja uma
carga pesada demais para carregar. Não é preciso se esforçar para tirar férias, desde
que ela seja apenas um momento de descanso e não de planos mirabolantes. Não é
necessário se esforçar para dizer eu te amo. É só tirar um minutinho do dia e ligar
para alguém que você acha que precisa ouvir esta declaração suave de vida. Não
acredito que fomos criados para viver correndo, comendo fast- food, lutando por um
espaço. Fomos criados para divertir, viver em comunidade e respeitar nossos próprios
tempos e limites. Uma das necessidades mais urgentes desta geração é sem dúvida
aprender a descansar, parar e rever o tempo que ainda resta.
(*) Flávia Lippi é Jornalista, diretora, produtora e
apresentadora de programas de rádio e televisão. |
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