Pitada
do especialista
por Laerte Leite
Cordeiro(*)RH: da burocracia à estratégia
No ano de 1965, quando começávamos muito timidamente a escrever sobre assuntos
ligados a Relações Industriais, nome anterior de Recursos Humanos, entendemos que um dos
temas relevantes para aquele momento da história administrativa brasileira era o das
relações entre aquela importante área de atuação nas empresas e as outras áreas da
organização. Chamamos o despretensioso artigo de "Relações Industriais versus
Supervisão" e foi publicado na Revista de Administração de Empresas, editada pela
Fundação Getulio Vargas.
Já então o papel da área de Recursos Humanos começava a ganhar espaço nas
organizações e o velho Departamento de Pessoal, do simbólico Gerubal Paschoal (O Homem
do Pessoal) já ficava para as empresas pequenas e medias. Como professor
"full-time" dos cursos da Escola de Administração de Empresas de São Paulo,
da FundaçãoGetúlio Vargas, incumbido por gosto e por formação da disciplina de
Recursos Humanos e como consultor profissional, atuando em Administração Geral e
Relações Humanas, tinha a oportunidade de ouvir as duas partes, em inúmeras
manifestações da época, inclusive em reuniões pesadas e contundentes, assim como em
fóruns e escritos.
Eram ainda poucos os Diretores de Recursos Humanos atuando já no nível estratégico
das organizações, sendo mais freqüentes, ainda, os Gerentes de Pessoal ou de Relações
Industriais, freqüentemente reportando a um Diretor Administrativo e atuando de forma
eminentemente operacional. Os RHs da época, salvo honrosissimas exceções, cumpriam
objetivos, políticas e diretrizes emanadas da mesa diretora, onde as estratégias eram
definidas e buscavam realizar sua implementação da maneira mais eficaz e econômica
possível.
Cumprir políticas superiores, de cuja definição o RH não participava, era tarefa
delicada e burocrática, em geral invadindo territórios e cerceando liberdades. As
relações entre as gerencias de outras áreas e a de Rh eram oneradas pela própria
natureza da função que, no entender de muitos gerentes, impedia aumentos livres de
salários, "atrasava" o ingresso de novos funcionários, protegia os
"pobres" funcionários e operários dos gerentes "maldosos", cortejava
sindicatos e bloqueava punições merecidas. Entre outros nomes pelos quais RH era
saudado, havia apelidos como o "castelo da burocracia", os "bons
samaritanos" e o "Depto Bla-Blá-Blá", alem de alguns outros, pouco
mencionáveis em voz alta.
RH por sua vez, não ficava atrás e também tinha suas queixas: "feitores e
capatazes", chefes e não líderes, injustos nas críticas, cada um acha que pode
fazer o que quiser, indisciplinados, não pensam na empresa, só nas suas áreas e assim
por diante.
A relação era mesmo difícil porque RH não participava, nem entendia bem do negócio
da empresa e os gerentes das outras áreas percebiam que o diálogo era mesmo de surdos.
Não sendo chamado a discutir o negócio da empresa, RH buscava mesmo ser eficiente e
eficaz na operação das suas atividades e quanto mais procurava o sucesso, mais irritava
os outros gerentes. Muitas vezes tentava-se até mesmo passar por cima de RH como forma de
resolver problemas urgentes. Meio virava Fim.
À medida em que RH foi se distanciando da velha Administração de Pessoal e sendo
considerada, inicialmente como área prioritária de atenção e mais recentemente como
área nobre e essencial das organizações, as relações internas foram se
aperfeiçoando, o sucesso do negocio foi sendo compartilhado e o prestigio real de RH foi
sendo alcançado. Os Diretores e os Gerentes mais seniores de Recursos Humanos já hoje -
nas grandes empresas e grupos - sentam à mesa das grandes decisões, sabem qual o seu
papel no esforço geral, ganham salários significativos e são melhor compreendidos pelos
seus Colegas, para cuja eficiência e eficácia nitidamente contribuem. As empresas que
já alcançaram este nível de compreensão e atuação, certamente são beneficiarias da
melhoria da relação.
Embora a prática do dia-a-dia das organizações mostre que a relação melhorou e se
aperfeiçoou é preciso lembrar que isso é mais verdade nas empresas grandes e dirigidas
de forma mais atualizada e moderna. Naquelas menos bem administradas a guerra talvez ainda
continue, o que parece ser verdade em muitas empresas medias.
A atitude e o desempenho de RH voltado para o negócio, a qualidade de sua metodologia
e a preocupação com apoiar as demais áreas da organização, certamente vão facilitar
muito a vida de todas as partes.Uma melhor competência e disciplina gerencial e a
continua busca do alevantamento da qualidade profissional dos gerentes usuários,
certamente contribuirão para o maior sucesso da relação e de suas empresas.
(*) Laerte Leite Cordeiro é Diretor
e Consultor Titular da Laerte Cordeiro Consultoria em Recursos Humanos em São Paulo,
especializada em Aconselhamento de Carreiras e Outplacement. |