Pitada
do especialista
por Laerte Leite Cordeiro(*)Por que não consigo me recolocar?
A pergunta é frequente nos escritórios de "coaches" profissionais ou de
empresas de Outplacement e Recolocação, mostrando que os candidatos a emprego enfrentam
situações às vezes dramáticas, sem que possam identificar, com clareza, as razões que
os levam a procurar colocação sem maior sucesso.
São, com frequência, processos de busca trabalhosos - e às vezes caros - que muitas
vezes não dão resultado e não trazem o emprego desejado. Se o desemprego já assusta no
momento da notícia da demissão, o fracasso das primeiras tentativas traz a frustração
e o insucesso na procura, depois de meses, pode ensejar depressão, baixa na autoestima e
até apatia, sem contar com os problemas materiais decorrentes.
Embora as pobres estatísticas sobre o assunto do prazo para recolocação indiquem
como razoável um período de 4 a 6 meses de procura e espera, um número grande de casos
pode levar de 6 a 12 meses na busca do novo emprego. Pior do que isso, ainda, é que
haverá certamente um número de casos que não vão ter solução, demandando que o
profissional disponível procure outras alternativas de atuação, às vezes mudando
radicalmente sua abordagem ao mercado de trabalho.
O importante, além de se constatar que de fato muitos profissionais estão se fazendo
essa pergunta no Brasil nos últimos anos e precisando de uma resposta urgente e eficaz,
é se tentar estabelecer, efetivamente, quais as causas que podem levar o profissional a
não conseguir recolocar-se.
A explicação para a difícil recolocação profissional pode ser examinada à luz de
dois grupos: as razões de Contexto e as razões Particulares.
RAZÕES DE CONTEXTO
Trata-se aqui daquelas razões de natureza geral, do ambiente, do mercado, do momento,
da geografia, da economia, da situação nacional ou internacional, das circunstâncias
políticas que o País atravessa, de diferentes culturas organizacionais e, às vezes,
até do calendário anual. Não é incomum dizer-se que "o mercado só reabre depois
do Carnaval" ou que "tudo para nas crises políticas", ou que "vamos
deixar para depois das férias" ou frases equivalentes.
A verdade é que o contexto cria, sim, circunstâncias que podem justificar a
dificuldade de se obter uma recolocação, independentemente das qualificações de cada
candidato e de sua competência para desenvolver uma adequada campanha de marketing
profissional.
É importante por isso, ao se avaliar as dificuldades de recolocação em cada caso,
atentar-se para o contexto, em termos de momento e de características gerais do mercado.
O melhor profissional, com a melhor história, o currículo mais bem feito, a maior
competência nas entrevistas e a mais adequada divulgação pode não alcançar sucesso na
sua busca por recolocação, se as condições macro de mercado não lhe forem
favoráveis. Se, por exemplo, o Gerente Financeiro era um dos profissionais mais
procurados no mercado nos tempos de alta inflação, por gerar as conhecidas
"Receitas Não Operacionais" entre outros benefícios, hoje sua posição no
ranking de mercado deixou de ter tanto destaque e a recolocação pode ser menos fácil.
Portanto, se o profissional está encontrando maior dificuldade em se recolocar no
mercado cabe sempre a pergunta: Como está o mercado em geral e especialmente, como está
o mercado para minha área de atuação e para minha especialidade? Vale lembrar que esta
indagação é preliminar à preocupação com a apresentação individual ao mercado.
RAZÕES PARTICULARES
Imaginando-se que uma análise do contexto da recolocação não indique dificuldades
maiores ou insuperáveis no caminho da busca do novo emprego, então será necessário
avaliar-se as peculiaridades da candidatura a fim de se verificar o que pode ser feito
para se alcançar sucesso na empreitada.
Dentre as razões particulares que podem estar onerando o processo de recolocação
podem estar as seguintes:
- Falta de um foco de busca ou de um objetivo profissional claro e
definido. Se o profissional não sabe bem definir o que busca em termos de nível
hierárquico, cargo, funções, título, empresa, ramo empresarial, remuneração, cultura
organizacional compatível e demais características, vai ter dificuldade para se
recolocar. O mercado não compra o que não entende; e se o próprio profissional não
sabe estabelecer com clareza o que quer, o mercado muito menos. Também não vai valer
dizer ao mercado que qualquer posição lhe interessa e que é capaz de enfrentar qualquer
desafio: uma verdade futebolística histórica é a de que jogador que diz que "joga
nas onze", nunca vai para a seleção. E se o profissional imagina que dizendo
aceitar uma remuneração menor do que tinha no último emprego vai conseguir a
recolocação pode ir desistindo: a empresa interessada vai sempre achar que na semana
seguinte da admissão, o "Caderno de Empregos" vai continuar a ser sua leitura
constante. É fundamental que o Recolocando tenha uma visão clara do que pretende e do
que vai buscar no mercado e lute pelo que quer.
- Falta de um bom e promocional Currículo. Alguém já disse que um
bom Currículo pode não dar o emprego desejado; mas um mau Currículo pode fazer perder
boas oportunidades. Vamos mencionar aqui só alguns dos problemas mais encontrados nos
currículos recebidos em nossa prática de consultoria em Recursos Humanos:
- Currículos que não definem no seu caput o objetivo do
profissional
- Currículos de mais do que 3 páginas
- Currículos escritos sem preocupação com a qualidade do texto:
pretenção, excessão, seje, etc.
- Currículos com maquilagem pesada ( exageros ou mentiras)
- Currículos impressos em papel ofício ( e não em A-4)
- Currículos escritos para quem escreve e não para quem deve ler
- Currículos que se perdem nos detalhes e se esquecem do todo
É fundamental que se entenda que o Currículo chega às mãos da empresa que pode se
interessar pelo profissional bem antes dele ser eventualmente convidado para uma
entrevista ou para outros passos da seleção. Um bom Currículo ajudará a criar uma boa
primeira impressão e oferecerá, ao selecionador, as informações necessárias para um
bom processo de avaliação, o qual será importante para ambos os lados. Infelizmente,
porém, a maioria dos currículos vende mal o perfil do candidato e muitas vezes não é
sequer confiável.
Falta de uma boa atuação nos processos de seleção das empresas. Para os
profissionais dos níveis menores da hierarquia, os processos de avaliação de candidatos
vão incluir análise curricular, entrevistas, provas de capacidade, dinâmicas de grupo,
testes psicológicos e por aí afora. Para executivos de nível médio e superior, o ponto
forte da avaliação são as entrevistas individuais e é aí que muitas vezes os
candidatos tropeçam. Um bom histórico profissional, descrito num bom currículo, pode
ser destruído por um mau desempenho nas entrevistas pessoais. Coisas como chegar
atrasado, trajado de maneira incompatível com o tipo de empresa, mostrando uma postura e
um gestual inadequados para o nível de posição que se aspira, falando um Português
pobre e com dificuldade para a comunicação interpessoal, são alguns dos tropeços mais
encontradiços. Todo entrevistador no nível executivo busca avaliar
qualquer candidato a partir de uma grade de três blocos de competências: o bloco
técnico-profissional, para concluir se o entrevistado demonstra capacidades e
competências para fazer o trabalho que se espera dele; o bloco social, para estabelecer
se o indivíduo que se apresenta tem nível para o relacionamento interno e externo de sua
atuação; e o bloco gerencial, para definir se o profissional oferece as competências
necessárias para um desempenho eficaz na sua função de administrador. Quando o
candidato não percebe essa grade e tenta um discurso não planejado, muitas vezes se
confunde, perde tempo e não consegue vender o seu peixe! As entrevistas de emprego, em
qualquer nível são momentos de tensão. Para executivos, que podem definir sua
recolocação ou não naqueles momentos de adrenalina alta, a coisa fica difícil e a
incapacidade de lidar com a situação pode, sem dúvida, bloquear o sucesso na tentativa
de admissão ao novo emprego.
Falta de uma divulgação adequada da candidatura. Os meios mais utilizados para a
divulgação da candidatura de executivos e profissionais de nível no mercado devem
incluir, no mínimo, os seguintes:
- Envio do currículo para as principais empresas de consultoria em
recrutamento e seleção de executivos (headhunters);
- Envio do currículo em resposta a anúncios de recrutamento
publicados nos Cadernos de Emprego dos principais jornais;
- Envio do currículo a empresas e organizações que potencialmente
tenham maior interesse na experiência profissional do candidato (empresas-alvo);
- Colocação do currículo nos principais Bancos de Profissionais
de empresas especializadas nesse tipo de divulgação;
- Visitas pessoais às pessoas de seu network de relacionamento,
para conseguir indicações e recomendações.
A prática da consultoria em Outplacement indica que as contratações ocorrem, para
executivos e profissionais, predominantemente por indicações e recomendações, seguidas
pelo trabalho dos headhunters e deixando por último os anúncios de jornais e os Banco de
Profissionais.
O profissional que sabe bem o que procura, tem um bom currículo e se dá bem nas
entrevistas só terá sucesso se desenvolver uma boa campanha de divulgação de sua
candidatura no mercado. Infelizmente, a maioria dos executivos e profissionais brasileiros
ainda investe pouco em sua carreira e no seu necessário relacionamento profissional. Há
já muitos anos que quando se quer um novo emprego é preciso buscá-lo de forma planejada
e disciplinada e uma divulgação pouco elaborada ou preguiçosa dificilmente trará o
sucesso ou demorará demais até oferecer resultados. Finalmente, é preciso lembrar que
todos os caminhos de divulgação devem ser percorridos de forma integrada, de sorte que
onde quer que uma empresa possa procurar lá esteja o executivo/profissional candidato. É
preciso batalhar em todas as frentes simultaneamente.
A pergunta feita por tantos executivos e profissionais disponíveis no mercado
atualmente, "porque não consigo me recolocar", deve ter resposta na análise
dos pontos aqui levantados: o mercado em geral está ativo e buscando talentos? E o seu
mercado em especial? Como anda? Seu objetivo profissional está definido? Seu currículo
comunica bem esse objetivo e sua história pessoal e profissional? Você se sente
competente e confiante em sua atuação nos processos de seleção para os quais seja
convidado? O marketing de divulgação de sua candidatura está integrado e completo?
Não se pretende aqui estabelecer que uma vez respondidas adequadamente as perguntas
aqui feitas, a recolocação virá de mão beijada. O emprego hoje precisa ser batalhado e
a recolocação é como se fora uma competição desportiva difícil, com adversários
temíveis. Por outro lado, sem uma boa preparação e sem a energia necessária, o emprego
pode demorar ou até não acontecer.
(*) Laerte Leite Cordeiro é Diretor
e Consultor Titular da Laerte Cordeiro Consultoria em Recursos Humanos em São Paulo,
especializada em Aconselhamento de Carreiras e Outplacement. |