Pitada
do especialista
por Laerte Leite Cordeiro(*)A Recolocação de um executivo
INTRODUÇÃO
"Executivo" , como todos sabemos, é um termo importado do jargão
empresarial americano e no original é "Executive". Não vamos entrar aqui nas
velhíssimas discussões sobre o seu significado literal ou popular, mas o fato é que no
Brasil, um Executivo é um profissional que gerencia ou dirige, que assessora ou
superintende, que comanda ou que chefia, num nível que está acima da primeira linha de
Supervisão ou Coordenação. São "executivos" os Gerentes médios e seniores,
os Assessores de Direção, os Superintendentes, os Diretores-Adjuntos e os Diretores,
estatutários ou não e os seus equivalentes. Encarregados, Coordenadores, Supervisores de
1ª. Linha e Chefes de Seção, em geral não são vistos como "executivos". É
claro, sempre, que nomenclatura e cultura complicam estas definições mas é melhor ficar
com a maioria e a "voz do povo".
Recolocação é também um termo criado no Brasil, nos anos70, que pretendia, na
origem, traduzir, para melhor entendimento local, a expressão "Outplacement",
também importada dos Estados Unidos, que se referia ao esforço de busca de um novo
emprego por parte daqueles "executivos" demitidos por suas empresas. O
profissional iniciava, pós-demissão, a sua transição de carreira, deixando o emprego
anterior e a caminho do próximo. Para essa busca de uma nova alternativa profissional, o
executivo muitas vezes tinha o apoio da própria empresa demissora, a qual, dependendo de
sua política de recursos humanos ou de outras características do profissional envolvido,
chegava mesmo à contratação de uma empresa especializada para ajudá-lo em sua procura
do novo emprego. Era uma empresa de Consultoria em "Outplacement".
UM POUCO DE HISTÓRIA
O começo da década de80 viu as empresas multinacionais no Brasil assustadas com a
crise internacional que chegava às nossas portas e a demissão de executivos, prática
pouco frequente até então em nossas empresas, passar a ocorrer de forma intensa e até
pouco planejada. Era o momento da redução dos custos, dos salários mais altos, do
achatamento e do estreitamento da pirâmide organizacional. Era aliviar ou morrer,
pensava-se.
Muitos executivos, hoje mais seniores, hão de se lembrar que as 6ª. Feiras eram as
tardes de "São Bartolomeu", quando um chamado à sala do Chefe podia significar
que seu emprego tinha "ido para o espaço". Muitos Diretores e Gerentes de
Recursos Humanos da época sofreram muito, pessoalmente, ao dar tantas noticias ruins aos
seus próprios colegas, às vezes de tantos anos. Pior do que isso é que sabiam das
dificuldades dos seus ex-colegas para encontrar novos empregos, valendo lembrar que, à
época, os executivos não estavam preparados para as dificuldades dessa busca no mercado
Nessa hora difícil as empresas demissoras voltaram-se para o mercado das consultorias
tentando encontrar prestadores de serviços especializados que as pudessem ajudar, para
reduzir os traumas organizacionais decorrentes das demissões. E encontraram apenas alguns
pioneiros que importavam técnicas e práticas americanas e que eram, ainda timidamente e
sem apoio em pesquisas, a única alternativa para a ajuda aos demitidos. Claro que essa
situação não durou muito tempo e logo se apresentaram ao mercado, disponibilizando seus
serviços, empresas brasileiras agora melhor preparadas e empresas internacionais do ramo
de "Outplacement" que enxergaram, no Brasil, um terreno mercadologicamente
fértil para os seus serviços.
Vale lembrar que nos primeiros tempos o "Outplacement" como trabalho de
consultoria oferecido pela Empresa ao seu Demitido era coisa quase privativa das
multinacionais no Brasil e pouco entendida pelos empresários e administradores das
empresas brasileiras. A pergunta era: Como? Vamos pagar uma consultoria para ajudar o
nosso demitido a encontrar um novo emprego? E, durante muitos anos, as consultorias de
"Outplacement" trabalharam efetivamente quase que só para as multinacionais ou
para as grandes organizações nacionais.
Como tudo na vida é pendular, o patrocínio dos serviços de consultoria em
"Outplacement" pelas empresas demissoras saiu até de pouco entendimento, no
inicio, para uma fase - alguns anos depois - que poderíamos até chamar de modismo,
quando era "feio" despedir-se um executivo sem lhe oferecer o Outplacement no
pacote de saída. Por causa disso tudo, o numero de Consultorias especializadas em
"Outplacement" cresceu no Brasil e é possível afirmar-se que, entre empresas
nacionais e estrangeiras, temos em nosso País serviços comparáveis aos melhores dos
paises mais empresarialmente desenvolvidos. Hoje, nem é mais "bobagem", nem é
"modismo, o Outplacement no Brasil. Certamente existe uma consciência da
importância da ajuda da empresa ao seu demitido, ainda que não se transforme o apoio
humano numa festa.
Só que antes, como agora, empresas e empresários existem que não entendem ou não
concordam com o conceito de Outplacement e consequentemente não o aplicam na sua gestão
de Recursos Humanos. Claro que como em geral esse é um serviço mais sofisticado e
complexo, nem sempre o custo financeiro dos seus honorários é baixo. Mas o não
oferecimento desse tipo de apoio, nem sempre é devido ao seu custo. Às vezes falta mesmo
ou o conhecimento ou o entendimento do conceito.
"OUTPLACEMENT" AGORA
O fato é que há executivos e profissionais disponíveis e interessados no mercado de
trabalho que não tem suporte financeiro de suas empresas anteriores (ou atuais, óbvio)
para a contratação de um serviço especializado de Outplacement. Aqui se incluem
executivos demitidos sem Outplacement, executivos que ainda estão trabalhando mas
mal-satisfeitos, profissionais de consultoria que não obtiveram sucesso e desejam voltar
a empregar-se, ex-empresários de negócios que também não deram muito certo , mulheres
que interromperam suas carreiras e agora desejam voltar a um emprego, executivos que se
aposentaram mas sentem que é preciso voltar a trabalhar e tantos mais casos de
profissionais que desejam recolocar-se no mercado de trabalho das empresas Para estes a
tarefa é recolocar-se, utilizando seus próprios conhecimentos e experiência
profissional de mercado, ou contratando o que se poderia chamar de consultorias de
Outplacement Particular (em contraposição do Outplacement Corporativo, quando o serviço
contratado é patrocinado pela empresa demissora) ou de Recolocação Profissional, às
suas próprias expensas.
AS CONSULTORIAS DE "OUTPLACEMENT"
Até bem pouco tempo atrás, poucas empresas se dedicavam a esse tipo de serviço. A
maioria das grandes empresas de consultoria de "Outplacement" Corporativo, não
desenvolviam projetos que não tivessem o patrocínio de alguma empresa, deixando de
atender toda a gama de pessoas físicas que necessitava desse tipo de apoio profissional.
Hoje o mercado de consultoria a ser considerado se divide em 3 categorias: as que só
atendem as empresas como contratantes de Outplacement Corporativo, as que atendem as
empresas no Outplacement Corporativo, mas também atendem as pessoas físicas no
Outplacement Particular e as empresas que atendem qualquer caso, mas cujo negócio tem
ênfase nos projetos de pessoas físicas (Recolocação). Como em todos os segmentos
profissionais há empresas melhores e piores, mais ou menos éticas, de maior ou menor
sentido de responsabilidade social. Às empresas contratantes e às pessoas físicas
interessadas nesse tipo de serviço incumbe avaliar bem com quem estão fazendo negócio.
O que se observa hoje em dia, depois que durante todos estes últimos anos enfrentamos
tantas crises no mercado de trabalho e fomos bombardeados com os diversos "Planos
Econômicos", mirabolantes e salvadores, alem das ideias mágicas da Reengenharia,
do "Downsizing" e da Terceirização, sem esquecer das "bolhas"
setoriais , é que um grande numero de executivos já conhecem as técnicas, métodos e
processos a serem utilizados na busca de empregos no mercado de trabalho pouco ofertante
nestes últimos muitos anos.
A importância de um bom "network" de relacionamento, o envio de currículos
para os mais competentes "headhunters", um Currículo eficiente e eficaz, o uso
dos sistemas da Internet e a resposta aos anúncios classificados dos jornais de grande
circulação, representam as ações mais efetivas e conhecidas na busca de uma
recolocação profissional no mercado e há manuais, livros, apostilas, cursos, cds e dvds
sobre como utilizar todos esses caminhos.
A IMPORTÂNCIA DO "COACHING"
A grande contribuição, a nosso ver, das consultorias de Outplacement Corporativo ou
Particular, reside na função de aconselhamento ou "coaching" que deve
acompanhar os seus trabalhos de apoio aos executivos em fase de transição de carreira.
"Coaching" que vai ajudar o profissional a repensar sua carreira, a se situar no
momento presente e a fazê-lo definir, com clareza, seus objetivos para o futuro. O
próprio interessado pode fazer muito do que é processo, do que são as providencias
burocráticas do seu "Outplacement"; mas seu projeto precisa de um interlocutor
qualificado, para ouvir, debater, pensar junto, criticar construtivamente, especular sobre
o futuro e eventualmente recomendar ações necessárias que venham a facilitar o processo
de recolocação. Na hora da crise profissional, nem sempre o experimentado pai, a
carinhosa esposa, o irmão mais velho ou o "amigo do peito" poderão ajudar
muito. Falta-lhes, por vezes, a experiência empresarial atualizada e sobra-lhes, às
vezes, a visão parcial e pouco isenta, que os inabilita a um aconselhamento objetivo e
concreto. O "Coach" profissional que participa do projeto contratado com uma
consultoria especializada em "Outplacement" terá certamente um papel importante
no conjunto de ações que levarão ao sucesso da empreitada de recolocação.
A RECOLOCAÇÃO DE UM EXECUTIVO
Além do conteúdo profissional de cada um - principal fator de sucesso - a
recolocação de um executivo é hoje a resultante de um esforço inteligente de marketing
pessoal, que alia uma série de ações técnico-burocráticas a um bom planejamento de
carreira. É até possível ao executivo disponível e interessado adotar os passos do
processo hoje já bem conhecido e alcançar a recolocação pretendida. Mas certamente
será mais fácil e provavelmente mais eficaz, contar com uma empresa especializada para
apoiar seu projeto, seja ela patrocinada pela empresa demissora ou com recursos do
próprio bolso. E boas empresas de consultoria em Outplacement não faltam no Brasil. Só
é preciso saber escolher.
(*) Laerte Leite Cordeiro é Diretor
e Consultor Titular da Laerte Cordeiro Consultoria em Recursos Humanos em São Paulo,
especializada em Aconselhamento de Carreiras e Outplacement. |