Pitada
do especialista
por Laerte Leite Cordeiro(*)A zona de conforto
Fala-se muito, atualmente, sobre a chamada
"Zona de Conforto", aquele momento da carreira em que as coisas estão sob
controle, com um bom emprego, um bom chefe, um salário confortável, uma boa empresa,
perto de casa e sem muitos riscos, sem excesso de trabalho e, mesmo que não seja muito
entusiasmante , também não é muito estressante.
Quando se vive na "Zona de Conforto" as cobranças não são muitas, não há
muito que se investir, não é preciso buscar desenvolvimento à custa de sacrifício
pessoal e da família, não se investe muito em informações ou relacionamento, quase
não se viaja a serviço.
A vida profissional é tranquila ainda que trabalhosa e o que era bom ontem, ainda
vale para hoje e não se espera seja muito diferente no futuro previsível. Conhece-se o
jeitão do chefe e dos colegas, conhece-se bem a "cultura" da Casa e não há
surpresas.
Claro que a "Zona de Conforto" não acontece para quem chegou à Empresa
recentemente e, em geral, é preciso contar alguns anos de serviço na Casa, para poder
ingressar nessa ambicionada situação, objetivo de muitos executivos profissionais.
Aparentemente, portanto, a "Zona de Conforto" sería o grande objetivo
profissional para todos os executivos, os quais conviveriam com ela, felizes da vida e sem
maiores preocupações.
Mas, será mesmo assim?
De repente um "Board" toma uma decisão na Filadélfia, o antigo dono da
Empresa se afasta, os Sócios decidem vender a Empresa, o Chefe antigo é trocado por um
novo - um estranho -, o Mercado muda seus hábitos, a Inflação retorna, uma nova Lei
passa e a "Zona de Conforto" vai para o espaço.
Inesperada e rapidamente, tudo aquilo que era tão bom e confortável desaparece e a
vida funcional passa a ser preocupante. Mantem-se, talvez, o emprego, mas a nova
Administração agora quer saber quem ficou escondido atrás da geladeira do escritório,
vivendo um "bem bom" profissional que não podia mesmo durar. Os novos chefes
agora querem mudar, para mostrar serviço ou para crescer e desenvolver a empresa, ou
ambos, e não querem saber de histórias tristes.
A "Zona do Conforto" passa a ser palavrão e quem viveu nela, com graça e
alegria, agora se assusta e se preocupa, porque facilmente pode passar a ser visto como um
dos "dinossauros" da organização, herdados da gestão anterior. E o que se
dizer da empregabilidade de cada um? Sem estimulo, sem cobrança, sem algum stress,
vivendo no clima gostoso da "Zona de Conforto" talvez se tenha ficado para trás
e o valor de mercado de cada um tenha caído sensivelmente, face às expectativas da vida
fora da empresa.
Claro que enquanto se está na empresa e se conseguiu manter o emprego, tudo talvez
ainda possa ser corrigido para se conseguir ficar à altura das novas expectativas; mas, e
se no processo de mudança o executivo perder seu emprego? Agora, não tem mais "Zona
de Conforto", nem emprego, e agora é preciso fazer um Currículo às pressas porque
nem era preciso ter um e não se sabe muito bem o que vai se colocar nele.
Provavelmente se for para descrever os tempos da "Zona de Conforto" o mercado
nem vai querer saber. O Inglês que não se quis aprender, os cursos de aperfeiçoamento
que não se fez por "falta de tempo"; o conhecimento modesto da Informática, os
livros que não se leu, as revistas de atualização que não se assinou, as feiras e
congressos dos quais não se participou, o "network" no qual não se investiu,
tudo agora passa a ser
cobrado e nenhuma outra empresa vai querer saber da sua "Zona de Conforto".
A culpa pela manutenção de "Zonas de Conforto" para os profissionais de uma
empresa, ao longo do tempo, não pode apenas ser atribuída a cada executivo
individualmente. Em um grande número de casos é muito mais da Empresa, a qual certamente
olhou só para o presente de curto prazo e perdeu de vista a visão estratégica do
horizonte e do futuro.
A Organização que permite aos seus executivos e funcionários viver a "Zona de
Conforto" como descrita aqui, ao longo do tempo irá, muito provavelmente, caminhar
para uma situação frágil em todos os sentidos e, no tempo, terá mesmo que sofrer
mudanças drásticas.
A grande recomendação parece ser a de que quando a Empresa ou os seus Executivos
estão muito tranquilos, embalados pela gostosa modorra das suas "Zonas de
Conforto", é hora de fazer estremecer as estruturas antes do fim chegar.
O Mundo como ele é hoje, caracterizado pela mudança contínua e difícil, não
permite, às empresas, o luxo de ter os seus executivos vivendo em "Zonas de
Conforto". E, menos ainda, permite, a cada executivo profissional, a gostosa, mas
essencialmente perigosa "Zona", muito mais "de Risco" do que de
"Conforto".
(*) Laerte Leite Cordeiro é Diretor
e Consultor Titular da Laerte Cordeiro Consultoria em Recursos Humanos em São Paulo,
especializada em Aconselhamento de Carreiras e Outplacement. |