Pitada
do especialista
por Laerte Leite Cordeiro(*)Quem quer um executivo de presente?
Em principio, todas as empresas estariam interessadas. De
presente? Claro!
Evitar a trabalheira de recrutar e selecionar, economizar os custos com anúncios e
headhunters, verificar referências e outros, quem não quereria?
Mas, qualquer executivo?
É claro que não! Alguns seria ótimo ganhar de presente! Outros, nem de presente se
gostaria de ganhar.
E se fosse possível escolher? Como seria o executivo desejado e qual o que não se
quereria nem de presente?
O "Mais Querido"
Como seria essa figurinha carimbada, presente em todos os sonhos do Presidente e do
Diretor de Recursos Humanos de qualquer empresa? Que atributos e competências teria a
oferecer para ser aquele que se desejaria ter na empresa, mesmo que custasse caro e não
fosse de presente?
Qualquer empresa mais atualizada teria algumas exigências mínimas quanto ao perfil
desse "Mais Querido": uma graduação e um MBA em boas escolas, Inglês fluente,
talvez com um bom Espanhol, usuário qualificado no uso do Pacote Office e de ERPs, com
bom transito em seu meio profissional, alguma exposição a países do Exterior, jovem mas
suficientemente experiente, de vida estável e saudável e assim por diante.
Dentre suas competências gerenciais o "Mais Querido" teria qualidades de
Liderança, Bom Relacionamento Pessoal, Criatividade, Coragem Decisória, Comunicação,
Capacidade de Negociação, Flexibilidade, Bom Senso, Visão Geral e Pensamento
Estratégico, numa lista de ativos profissionais que não se esgota. No mais, o "Mais
Querido" certamente teria o seu Plano Pessoal de Carreira, com um foco bem definido
sobre o que pretende alcançar e sobre o que quer fazer, no tempo.
O "Nem de Graça"
Assim como se pode definir um perfil de excelência para o "Mais Querido",
não será, talvez, muito difícil, imaginar-se como seria o executivo que ninguém
queira, nem de presente!
Certamente, a lista de "atributos" do "Nem de Graça" iria incluir
coisas objetivas como uma graduação em escola pouco conhecida, sem esforço maior para
ampliar a escolaridade; o pouco interesse por cursos de aperfeiçoamento de curta
duração; um conhecimento pobre na área da Tecnologia da Informação; pouca ou nenhuma
capacidade de comunicação em outra língua que não o Português; reduzido interesse por
estabelecer e manter um bom "network" de relacionamento; pouca informação
cultural sobre o que ocorre em outras áreas do Planeta; confiante, às vezes, na sua
antiguidade na empresa onde está ou de onde vem; um profissional que adora a sua
"Zona de Conforto" e que não tem um motorzinho interno que o faz arriscar e
procurar soluções novas com muito empenho.
Se aplicássemos nele um inventário de competências gerenciais, o nosso "Nem de
Graça" provavelmente teria notas baixas em inúmeras qualidades e capacidades da
lista: o seu "drive" (energia vital, força, vontade) seria fraco ou abafado, a
sua iniciativa e proatividade reduzidas, a sua capacidade decisória moderada, pouco
empreendedorismo, dificuldade para negociação e persuasão e, talvez, pouca
autoconfiança, entre outras deficiências do nível de competência.
Pior do que isso, o nosso "Nem de Graça", poderia ser aquele profissional
que às vezes fez carreira em uma ou mais empresas, mas sempre se valendo de situações
ou circunstâncias que o faziam dar-se bem na sua trajetória sem sobressaltos. Aquele que
viveu em "brancas nuvens" no dizer do poeta e que vem rolando feito pedrinha
descendo a montanha. Embora leal e dedicado, terá dificuldade em adaptar-se a empresas
diferentes daquelas em que trabalhou e pode ficar evidente, logo,logo, que não terá sido
uma boa aquisição.
Um "Bom Presente"
Na verdade, a maioria dos profissionais que se apresentam no mercado e nas empresas
não é em geral o "Mais Querido", mas também não é o "Nem de
Graça". Ambos, obviamente, são figuras que se encontram na Praça, aqueles muito
procurados e pagos a preço de ouro e estes, buscando e quase sempre, com muita
dificuldade, acabando por encontrar lugar em alguma organização.
O "Bom Presente", uma terceira opção, será sempre aquele que junta as
virtudes medias dos dois modelos extremos, encontra compatibilidade com a cultura
organizacional da empresa na qual ingressa, procura atualizar-se, é dedicado e leal e
pode, com ajuda da organização, caminhar cada vez mais para o lado dos "Mais
Queridos".
A empresa a quem se ofereça um executivo de presente cabe sempre caracterizar o que
está ganhando. Óbvio que seria bom se a gentil doação fosse de um "Mais
Querido". Ninguém quer um "Nem de Graça. Mas um "Bom Presente" até
que pode ser muito bom ganhar. Até mesmo porque não só de "mais queridos" se
faz o sucesso de qualquer organização.
(*) Laerte Leite Cordeiro é Diretor
e Consultor Titular da Laerte Cordeiro Consultoria em Recursos Humanos em São Paulo,
especializada em Aconselhamento de Carreiras e Outplacement. |