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Pitada do especialista
por Laerte Leite Cordeiro(*)

A CRISE E O MERCADO DE TRABALHO PARA EXECUTIVOS

Qualquer crise econômica mais forte e duradoura – como a que se avizinha do Brasil - provoca três diferentes tipos de impacto sobre o mercado de trabalho para executivos:

  • Primeiro: Assusta todas as empresas, mas os dirigentes apenas ficam ansiosos, buscando, avidamente, informações sobre o que pode ser feito se a crise vier "mesmo";
  • Segundo: Os dirigentes das empresas, já agora acreditando, pelos números, de que a coisa está mesmo aí e parece "preta", tomam a primeira decisão dos tempos de crise: não se admite mais ninguém, até notícia em contrário. Nessa fase já ocorre uma ou outra demissão daqueles executivos ou profissionais que já estavam "balançando" em suas posições, justificada, a medida, como efeito da crise;
  • Terceiro: Vendo que as informações internas e externas são efetivamente ruins e que o futuro próximo não sinaliza melhora significativa, os dirigentes das empresas começam a buscar soluções mais drásticas, que permitam encolher custos e despesas e logo pensam no volume financeiro da folha de salários e encargos. E partem para estudos internos de racionalização organizacional e de processos administrativos internos, concluindo, obviamente, que alguns executivos ficam redundantes e excedentes, diante das imperiosas mudanças provocadas pela crise econômica. Com base nessa justificativa, os dirigentes entendem chegada a hora de um processo de redução de custos de pessoal, com desagradáveis – mas necessárias – demissões de pessoas.

A vítima maior desses processos, nesse terceiro e mais grave momento é o Gerente, que vira lâmina de mortadela, no sanduíche que em cima tem o Diretor – que raramente é demitido – embaixo o Supervisor, de quem o Diretor vai precisar muito na eventual ausência do Gerente e que não pode ser demitido porque é operacional e essencial, além de mais barato. Claro que outros profissionais também pagam o preço da crise: Assessores, Assistentes, Secretárias e demais elementos logísticos da organização, serão sempre os preferencialmente escolhidos para perderem seus empregos em nome da racionalização e da economia de custos.

No que respeita às áreas de atuação, os executivos de Marketing sofrem mais demissões do que os de Vendas, os Financeiros mais do que os Controllers e os de Pesquisa e Desenvolvimento de Produtos/Qualidade mais do que os de Produção. Os de desenvolvimento de sistemas em Tecnologia da Informação, os de desenvolvimento de pessoal em Recursos Humanos e os consultivos no Jurídico tenderão a ser os mais demitidos, com menos risco para Operadores de Sistemas, para os Administradores de Salários e Pessoal e dos Advogados do Contencioso. Claro que estas observações são genéricas e a realidade dependerá muito do segmento em que cada empresa atua.

Quanto aos salários, bônus e benefícios, correrão mais risco, obviamente, aqueles que signifiquem maior ônus financeiro para as empresas. Os que já se sabem acima do mercado ou ocupantes de funções menos significativas para o "core business", com baixa empregabilidade no mercado, viverão sempre a preocupação das chamadas sextas-feiras negras. Se num primeiro momento as empresas vão tentar reduzir bônus e benefícios voluntários, ainda assim o perigo permanece para aqueles que, do ponto de vista salarial, já estejam próximo do limite superior das suas faixas de remuneração.

O risco da demissão é obviamente maior para aqueles que a gíria do "business" chama de "dinossauros", para aqueles que se deixaram ficar na "zona de conforto" e para aqueles com problemas de relacionamento em suas fichas funcionais. O risco é menor para aqueles que tem tentado crescer, empreendedores e líderes potenciais porque a empresa, mesmo nos seus dias negros, não há de querer abrir mão desse contingente especial.

Algumas empresas, se necessárias as demissões, tomarão decisões baseadas em vida familiar, idade, tempo de casa, investimento feito em treinamento e classificação nas avaliações de desempenho, entre outros critérios. Embora um pouco discriminatório, o casado com filhos corre menos riscos, o arrimo de família também, o mais velho talvez menos que o mais novo e assim por diante. Claro que o detentor dos segredos industriais/empresariais corre menos riscos na hora do corte e aqueles cuja liquidação trabalhista seja "pesada" não serão os primeiros a serem lembrados na hora do "adeus, foi bom enquanto durou".

O propósito deste artigo não é o de assustar ninguém, mas sim alertar os leitores para as situações difíceis que advirão se efetivamente um grande número de empresas for, de fato, onerada pela crise da qual tanto já se fala. Que cada executivo análise sua situação e procure melhorar sua posição na organização, de sorte que, se a crise bater duro, não esteja, pelo menos, nas primeiras listas.

Esperamos que a crise econômica mundial passe ao largo ou que, pelo menos, não nos pegue, no Brasil, de forma tão dramática quanto alguns anunciam. Melhor, ainda, oxalá nossos dirigentes empresariais encontrem outros meios, que não as reduções de quadros, para enfrentar as dificuldades do momento. Aí, se esse for o caso, talvez este artigo que fala de coisas tristes, seja pouco aplicável e relevante. Tomara!

(*) Laerte Leite Cordeiro é Diretor e Consultor Titular da Laerte Cordeiro Consultoria em Recursos Humanos em São Paulo, especializada em Aconselhamento de Carreiras e Outplacement.

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