Pitada
do especialista
por Edson Lobo(*)Eu quero o salário!
No intimo, muitos funcionários pensam assim.
Em casos conhecidos no Brasil, mudanças em produtos aconteceram porque os consumidores
sugeriram, no entanto, por que os funcionários também não sugerem mudanças ou
modificações em produtos ou serviços?
Talvez dentro da cultura empresarial no país não haja espaço para isso, não haja
estímulo aos funcionários para que eles também tenham a visão dos consumidores e
possam fazer sugestões dentro da empresa onde trabalham.
A situação está difícil para as empresas, o mercado altamente competitivo, os
chineses no calcanhar, a globalização atinge os mais variados segmentos e permite a
criação de alternativas viáveis em relação ao consumo. Os funcionários reclamam da
sobrecarga de trabalho, querem mais benefícios, melhores salários, mas muitos não se
empenham no que fazem, buscando a ótica profissional, e sim se preocupando somente com o
salário, o tíquete, etc.
Basta ver a quantidade de gente que consegue um emprego e em seguida já está na
rotina, as preocupações situam-se na hora de entrada, no cafezinho, na hora do almoço e
na de saída. Também, em muitos casos, não querem responsabilidades para não se expor
muito e conservar o emprego.
No livro Cirque du Soleil A Reinvenção do Espetáculo (Editora
Elsevier) há uma observação interessante, pois eles cedem ingressos aos próprios
artistas, para que nas horas de folgas, assistam aos espetáculos e possam dar a opinião como
espectadores e também sugerir mudanças em alguns dos quadros.
Temos, por exemplo, o caso da Toyota que classifica o operário-modelo aquele que
identifica problemas e propõe soluções bem como deve se preocupar com a aplicação que
o produto terá depois de ser vendido.
Em outros casos, sugestões de clientes vieram através do Call Center, do SAC, ou,
como por exemplo, a Ajinomoto através da cozinha experimental Oficina do Sabor, seus
profissionais testaram boas idéias a partir de sugestões que chegaram pelo 0800 e
mudaram produtos, como no caso do picote de separação dos envelopes de Sazon.
Um cliente com deficiência visual sugeriu ao Bradesco o desenvolvimento de um software
que permitisse aos cegos o acesso às contas com a privacidade a que qualquer cliente tem
direito. Hoje, o Bradesco é o único banco brasileiro a oferecer tal serviço.
Existem outras empresas que tem historias iguais a essas, mas na grande maioria, foram
os consumidores que sugeriram as mudanças. E olhe que os funcionários também utilizam
produtos e serviços das empresas onde trabalham.
Em função disso, a área de Recursos Humanos deveria ser mais ligada para estimular
os funcionários a dar suas opiniões e sugestões aos diversos setores da empresa.
Ah, mas o RH não tem como se envolver com produtos ou serviços!
Isso, para mim, é sair de fininho, não querer mais responsabilidades! Afinal,
qual a função básica do RH dentro da empresa? Não inclui treinamentos? Não inclui
ouvidorias? Não é ele o termômetro da empresa? Não é ele o responsável por pesquisas
de clima organizacional? E porque também não pode receber sugestões, encaminhar aos
departamentos e, se for o caso de algo excelente ou viável, sugerir alguma premiação ao
funcionário que se empenhou em ajudar a empresa?
Existem no mercado diversas empresas que planejam incentivos, as quais têm formas e
conhecimentos para atividades como essa, criando projetos de Endomarketing para buscar as
melhores idéias e, consequentemente, uma melhoria nos produtos ou serviços, criando um
diferencial para a empresa destacar-se na competição pelo mercado.
Vivemos hoje numa época onde temos que buscar diferenciais, sair das chamadas zonas
de conforto, procurar crescer e vender mais, e isso só é possível com boas idéias.
Pode ser que muitas empresas não permitam esse tipo de manifestação, até porque
iria entrar em choque com a área de criação, com diretorias especificas etc, mas o que
interessa mais: seguir os caminhos da burocracia, ferir suscetibilidades e perder mercado
ou ouvir uma sugestão viável e ganhar um pouco mais de espaço?
Todos os funcionários das empresas deveriam se colocar na posição de consumidores,
mudarem um pouco o ciclo de pensamento e tentar enxergar oportunidades ou
mudanças, que seriam importantes para a empresa onde trabalha. E a empresa deveria estar
preparada para receber essas sugestões espontâneas.
Afinal, salário é ótimo, mas só virá se a empresa estiver com a saúde financeira
em dia!
(*) Edson Lobo é jornalista com
especialização em Administração de Marketing. Como jornalista, trabalhou durante
12 anos em diversas publicações da Editora Abril e posteriormente dirigiu a área de
Comunicações e Assessoria de Imprensa de empresas como Shell, Dow, Johnson &
Johnson, Banco BCN e Fininvest. Tem larga experiência em Varejo e Código de Defesa do
Consumidor. |