Pitada
do especialista
por Edson Lobo(*)O Ombudsman ainda vive
Acho que não sou só eu que fica frustrado
quando um produto ou serviço é ruim e não temos a quem recorrer.
Pode parecer brincadeira, mas tive a impressão que o Ombudsman morreu!
Por diversas razões comecei a vivenciar mais assiduamente a área motociclistica, isto
é, cheguei mais perto do mercado e dos negócios. Uma grande surpresa foi saber que nessa
área não existe Ombudsman. Fabricantes, rede de concessionárias, rede de lojas,
fabricantes de acessórios, associações, ninguém tem um Ombudsman que represente o
Cliente.
Observando, e também utilizando como Cliente, o Ombudsman (ou Ouvidor, mas não gosto
dessa palavra!) praticamente acabou virando um grande SAC (Serviço de Atendimento a
Clientes), isto é, virou departamento, gerencia, fugindo ao escopo inicial de ser
unicamente um Ombudsman. E o pior: não tem poder de decisão e não resolvem as coisas!
Além disso, certas áreas ignoraram solenemente o Cliente e não criaram a figura do
Ombudsman. Por exemplo, as empresas de telefonia celular! Essas só querem tirar o
dinheiro do Cliente, prestam um péssimo serviço, arrotam caviar (na propaganda, claro!)
e.....dane-se quem reclama!
Como também anda um silencio nessa área, fui consultar o Dr. João Elias de Oliveira,
Presidente da Associação Brasileira de Ouvidores / Ombudsman (ABO), o qual tem
consciência da falta de empenho das empresas e vou colocar aqui, literalmente, um trecho
do seu pensamento:
"Posso creditar à miopia da maioria dos empresários o fato de o SAC ou qualquer
contact center ser "competidor" da Ouvidoria. Você bem sabe o papel
diferenciador e o conteúdo da ação da Ouvidoria, seja pública ou privada. SAC e etc.
são ferramentas apáticas, passivas e impessoais. O Ouvidor personaliza o atendimento,
traduz para o português coloquial o gerundismo telefônico, enfim, humaniza e respeita o
contato com o reclamante. É claro que ele deve atuar sempre em segunda instância, ou
seja, torna-se ativo quando o setor reclamado não consegue solucionar qualquer problema.
Não se discute que a Ouvidoria pública avançou e se destacou na comparação com a
privada.
E por culpa das próprias empresas que enfocaram a Ouvidoria como uma ação de
Marketing de Defesa, de Relacionamento ou de Relações Públicas. Ouvidoria não pode ser
anteparo da incompetência, da letargia ou do distanciamento. Ao contrário, é canal de
comunicação, fonte de diálogo e, basta prestar atenção, pesquisa gratuita de opinião
e fantástico instrumento gerencial para alteração de procedimentos negativos, má
prestação de serviços ou oferta de mau produto."
Pior, Dr. João Elias, pior!!! Nem como estratégia de Marketing as empresas adotaram o
Ombudsman. Um Ombudsman de verdade tem que ter poder de decisão, ser quase um
mini-presidente, agregar valor à empresa, produtos ou serviços, ser um fonte de
informações e de pesquisa, enfim, algo que muitos temem: ter poder!
É obvio que para isso o profissional tem que ser adequado, político,
"anfíbio" (transitar bem em todas as áreas), ter visão holística, e muitas
outras qualidades, para realmente servir ao Cliente dentro da empresa.
Pego outro trecho do bate-bola com o Dr. João Elias: "É claro que sei da
importância da empresa privada na alavancagem econômica do país. Mas, o objetivo maior
é o lucro da empresa e não o benefício do cliente."
Pior, Dr. João Elias, pior!!! Nem isso fizeram direito as empresas que tem a área!
Não colocam o Ombudsman como defensor do Cliente e nem o utilizam para o lucro!
Devíamos começar do começo: o Ombudsman é o legítimo representante do Cliente
(sim, com C maiúsculo!), tem uma atividade diferenciada na empresa, tem poder de
decisão, resolve efetivamente os casos, numa ótica diferenciada e isenta.
As empresas evitariam ir para os Procons, Idecs, Tribunais de Justiça, ter sua imagem
arranhada nos jornais, revistas, sites, teves, rádios, e-mails de grupos de pessoas e
até paginas no orkut ou sites de relacionamento, tipo "Eu odeio a...".
Evitariam gastos desnecessáruios com advogados, ações judiciais, explicações, etc.
Porem, não é isso que acontece. Continuo vendo as pessoas se debatendo, estressadas,
cada um tem uma historia de horror junto às empresas e elas seguem errando, errando,
errando e nada fazem para resolver as pendengas.
O Ombudsman, os poucos que existem, se compararmos a quantidade de empresas no Brasil,
continuam funcionando como meros departamentos, lentos, irritantes, tem mentalidade de um
SAC de luxo, e os casos se arrastam e eles não tem poder para resolver as situações.
Assim, vendo Clientes estressados, a infinidade de casos que existe em andamento, a
falta de uma filosofia clara de Respeito ao Consumidor, a falta de apoio dos órgãos de
defesa do consumidor (pois só vão até certo ponto), a área de Recursos Humanos das
empresas deveria propor às suas respectivas empresas que repensasse sua estratégia de
Relacionamento com Clientes e voltar a valorizar o Ombudsman, com todas as letras.
Nós, os Clientes, ficaremos eternamente gratos.
(*) Edson Lobo é jornalista com
especialização em Administração de Marketing. Como jornalista, trabalhou durante
12 anos em diversas publicações da Editora Abril e posteriormente dirigiu a área de
Comunicações e Assessoria de Imprensa de empresas como Shell, Dow, Johnson &
Johnson, Banco BCN e Fininvest. Tem larga experiência em Varejo e Código de Defesa do
Consumidor. |