Pitada
do especialista
por Pedro Simonard(*)O Brasil em construção
Uma conhecida definição de nação, muito
aceita, afirma que esta seria composta por indivíduos que compartilham um passado
histórico (fatos históricos, ritos de criação, heróis nacionais e outros elementos),
elementos culturais (identidade, língua, valores, idéias, maneiras de pensar e agir
comuns) e, acima de tudo, que se reconhecem como membros co-partícipes de uma mesma
nação. Todos estariam unidos em torno de objetivos comuns e, mais importante, um projeto
de nação unificador e inclusivo. Se a tomarmos como parâmetro aceitável, cabe
perguntar se o Brasil pode ser considerado como uma nação.
Os cidadãos brasileiros compartilham um passado histórico com
pequenas diferenças regionais, isso é inegável. Elementos culturais unificadores
também existem. A língua e identidades ora positivas ("o país do futuro",
"o povo mais bonito do mundo", "somos bons por sermos mestiços), ora
negativas, o "complexo de vira-lata", como definiu Nelson Rodrigues ("só
podia ser no Brasil", "brasileiro não tem jeito!"). Em época de Copa do
Mundo somos todos brasileiros irmanados, torcendo para alcançar um objetivo comum.
Contudo, se o Brasil já teve projetos e objetivos unificadores e inclusivos que foram
propostos pelos setores mais nacionalistas (que pensam a nação) de suas camadas médias
urbanas, esses foram facilmente abortados pelos projetos totalitários das oligarquias
rurais brasileiras, impedindo que se conformasse um projeto nacional. Somos uma nação,
ainda, em formação.
No século XIX, o Brasil era composto por uma população majoritária
de escravos que não possuía cidadania porque era propriedade de seus senhores, formando
parte de seu capital. As classes hegemônicas brasileiras, as únicas que gozavam de
cidadania, eram xenófilas e estavam muito pouco preocupadas com os pobres e os escravos.
Lhes interessava os rumos de seus negócios, quase todos voltados para a exportação de
bens primários e a transfusão de capital do Brasil para os países imperialistas.
No final do século XIX, o capitalismo brasileiro alcançou estágio de
desenvolvimento em que era mais lucrativo livrar-se da mão-de-obra escrava, capital de
grande liquidez, mas de alto risco (o escravo podia morrer, adoecer, esgotar-se
fisicamente ou, pior de tudo, ficar inválido) e produtividade baixa. Para exercer as
funções desempenhadas pelos escravos, foram importados trabalhadores europeus mais
qualificados e mais baratos porque recebedores de um salário aviltante com o qual tinham
que prover sua subsistência e de sua família. Surge uma situação nova: os antigos
escravos tornam-se libertos da noite para o dia e são abandonados sem instrução, com
baixa qualificação profissional e sem cidadania. Por outro lado, os imigrantes europeus
chegam a uma terra estranha e começam a formar o germe do movimento operário brasileiro.
As classes dominantes implementaram relações de assalariamento para que sua dominação
e seu lucro permanecessem. Não desenvolveram nenhum projeto que visasse integrar
ex-escravos e imigrantes à sociedade brasileira. As manifestações populares em busca de
melhores condições de vida e emprego eram tratadas com o caso de polícia. Já naquele
tempo, as instituições estatais que mais estabeleciam relações com as camadas
populares eram aquelas ligadas à segurança e à repressão. As classes dominantes sempre
viram o povo ou como fonte de lucro e manipulação ou como ameaça a sua acumulação de
riqueza. Apesar disso, o nascente movimento operário conseguiu conquistar algumas
melhores nas relações de produção como a redução da jornada de trabalho e descanso
semanal remunerado.
A leva de imigração continuou forte até os anos 50 do século XX. As
políticas de marginalização das camadas pobres prevalecem até hoje. Com o fim das
grandes e constantes levas de imigração, começaram e se configurar três atores
políticos que se confrontam na arena sócio-política brasileira: as classes dominantes
(predominantemente brancas, já incorporando alguns imigrantes ou seus descendentes), as
camadas médias urbanas (também incorporando imigrantes e seus descendentes e alguns
indivíduos afro-brasileiros) e as camadas pobres formadas, em sua grande maioria, por
afro-descendentes.
Esse processo de confrontação é relativamente recente e ainda sofreu
um retrocesso de vinte e um anos com o golpe militar de 1º de abril de 1964 por meio do
qual, mais uma vez, foram implementadas mudanças para se manter a realidade conjuntural
inalterada.
A redemocratização recolocou o conflito entre esses atores na ordem
do dia ele não ocorre de maneira linear. Há retrocessos e avanços. É importante que
todos tenham a noção clara de que é deste confronto que surgirão projetos de nação
inclusivos e descentralizados, que deverão possuir vários centros de decisão de onde
emanarão projetos e princípios para todos os grupos que terão que ter voz e
participação ativas na elaboração desses projetos. Surgiria, assim, uma nação
realmente multiétnica na qual a diferença e a divergência de idéias seriam o cerne da
democracia, abandonando de vez o ideário positivista e autoritário de que ordem é
progresso. Por sua vez, democracia deixaria de ser sinônimo de eleições e passaria ser
vivida no cotidiano das pessoas nas relações de trabalho, nas relações de vizinhança
e nas relações de administração da coisa pública.
Ou abandonamos, o mais rapidamente possível, o "projeto"
excludente vigente no Brasil, ou estaremos fadados a ser uma nação partida na qual a
grande maioria, pobre e marginalizada, existirá para servir a uma pequena minoria
detentora de parcelas cada vez maiores da riqueza nacional, vivendo em suas residências
gradeadas permanentemente apavoradas com o dia em que os pobres se levantarão contra ela.
(*) Pedro Simonard, Ph.D,
é Antropólogo, Cientista Político, Professor Universitário. |