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Pitada do especialista
por Pedro Simonard(*)

Sobre a falta de projetos nacionais ou
a intervenção do Estado

Conversando com um primo brasileiro que mora no Havaí há mais de uma década, surgiu uma questão interessante. Nos últimos quarenta e cinco anos assistimos no Brasil a uma entediante e desesperadora repetição de ciclos de descontentamento, protesto, entusiasmo e decepção. As relações sociais se deteriorando continuamente, aumentando o descrédito para com as instituições sociais e políticas até que se aproxima uma eleição e o descontentamento e o descrédito cedem vez ao entusiasmo: povo nas ruas, "festa da democracia", como se a democracia não fosse muito mais do que uma mera eleição. Bastam dois anos do novo governo para que todos percebam que as mudanças esperadas não ocorrerão e que os mesmo de sempre continuam mandando.

Essa repetição cíclica expõe claramente a falta de projeto. Nenhuma classe social possui um projeto, planeja ou prepara; as coisas surgem sempre na reação. Reage-se aos fatos em lugar de planejar a maneira como se quer que eles aconteçam. Daí um otimismo sem fundamento sucedido por uma decepção profunda. As classes dominantes deitam e rolam e se mantêm no poder deixando as coisas como estão.

As camadas médias urbanas que, a partir da década de vinte do século passado, conformaram-se como a vanguarda intelectual do Brasil, produzindo pensadores brilhantes como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, entre outros, empobreceu e viu diminuir sua capacidade de produzir pensadores. A decadência do ensino público em todos os níveis, a crise ética causada pela falta de desenvolvimento econômico e social, o desemprego fazem com que as pessoas valorizem o imediato; não se desenvolvem projetos para o futuro. A classe média hoje está ávida por ganhar dinheiro fácil e faz o que for preciso para isso desde pousar nua para ensaios fotográficos em revistas, se expor ao ridículo em programas tipo Big Brother, até fazer concursos público para se locupletar com o patrimônio de todos.

O Presidente Lula como líder chega a ser simplório. Abandonou projetos e programas históricos de seu partido em nome da governabilidade. Acusa forças ocultas de boicotarem seu governo. As forças ocultas dele não são nada ocultas: são banqueiros, rentistas, grande latifundiários, grandes produtores rurais... É para estes que ele governa sem perceber que está sendo facilmente manipulado. Se seu governo der certo, muito bem nada terá mudado e essas forças continuarão enriquecendo e mantendo-se no poder. Ao mesmo tempo, empurram a oposição de esquerda para o ridículo já que um suposto governo de esquerda é mais de direita do que seu antecessor. Se o governo Lula fracassar, excelente também porque assim "a gente vai se ver livre desta raça por, pelo menos, 30 anos", como bem expressou o senador Jorge Bornhausen.

O que nós queremos para o Brasil daqui a dez anos? Em que nível nós queremos estar? Algumas questões se colocam claramente. Uma delas é a distribuição de renda. Existem certos parâmetros claros para norteá-la. Podemos levantar uns poucos: redução da carga tributária para produtos destinados à população de baixa renda; melhora nos serviços de educação e saúde pública que torne desnecessário o pagamento de planos de saúde e escola particular e assegure sua universalização para toda a população brasileira; redução dos lucros dos banqueiros, obrigando-os a emprestar dinheiro (a juros descentes) para atividades produtivas, gerando emprego (mais emprego e diminuição do desemprego, levando a menos gente desocupada, redução do exército industrial de reserva, salários melhores, mais consumo, mais empregos...). As prioridades poderiam ser investimentos maciços em educação, saúde, saneamento, transporte de massa, moradias populares, infra-estrutura e reforma agrária que gerariam empregos e renda. Some-se a isso o financiamento das atividades produtivas. Além da óbvia melhora na qualidade de vida, essas medidas ocasionariam a expansão do mercado consumidor, uma indústria nacional menos dependente do capital externo, o fim da pobreza e do analfabetismo, mão-de-obra mais qualificada, desenvolvimento de pesquisas, melhor exploração dos recursos naturais etc.

Por que as classes dominantes deveriam aceitar essa idéia? Esse tema pode ser enormemente desenvolvido, mas vou me deter em uns poucos aspectos: seria muito mais democrático. Os principais pilares da democracia liberal burguesa ocidental são liberdade, fraternidade e igualdade. A distribuição de renda favoreceria o desenvolvimento da cidadania e da democracia no Brasil. Como as classes dominantes se definem como liberais, seria apenas uma atitude coerente com o ideário que defendem. Mas esse argumento é muito ingênuo para ser apresentado a indivíduos pragmáticos.

A distribuição de renda e a formação de um mercado consumidor forte proporcionariam aos setores produtivos de capital nacional se colocarem de maneira mais competitiva frente aos produtores estrangeiros. Infelizmente essa realidade nos está distante porque as elites econômicas brasileiras perseguem, também, o dinheiro fácil e são capazes de vender suas empresas a controladores estrangeiros se assim acharem que conseguirão um auferir um lucro maior com menos risco.

Talvez seja o momento de o Estado intervir na economia planejando-a, ditando diretrizes básicas, criando metas e objetivos a serem atingidos em prazos estabelecidos de acordo com um cronograma embasado na realidade, deixando de ser um mero executor e controlador da política monetária.

(*) Pedro Simonard, Ph.D, é Antropólogo, Cientista Político, Professor Universitário.

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