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Pitada do especialista
por Pedro Simonard(*)

Solidariedade e mudanças

A guerra de George W. Bush contra o Iraque produz notícias diariamente, quase todas terríveis. Uma das que mais chamou a atenção da opinião pública informava que os serviços de alistamento militar das forças armadas norte-americanas buscavam atrair jovens de diferentes nacionalidades para lutar contra as forças de resistência iraquianas, atraindo-os com a promessa de que ganhariam a cidadania norte-americana após o término do período de engajamento militar, desde que se dispusessem a combater os iraquianos. Essa oferta atraiu indivíduos pobres, boa parte deles imigrantes ilegais, que procuravam realizar, a sua maneira, o "sonho americano". Contudo, houve um detalhe que eles, conscientemente ou não, negligenciaram: seria dada a cidadania àqueles que voltassem vivos.

Sem dúvida, esse é um elemento novo nos jogos de guerra norte-americanos. Desde a I Guerra Mundial que os EUA lutam distante de seu território e esse foi, sem dúvida nenhuma, um dos principais, senão o principal, motivo das derrotas sofridas, sobretudo no Vietnã. É difícil motivar uma tropa que está lutando por motivo fútil ou por um conceito ideológico - seja ele a democracia ou o mundo livre – e não pela defesa dos seus lares e de sua terra natal. Fenômeno semelhante ocorre com os soldados brasileiros no Haiti cujo moral anda baixo porque não conseguem perceber uma boa razão para permanecerem tanto tempo longe de suas famílias. Na guerra contra o Iraque o elemento novo é o alistamento de jovens estrangeiros que lutam pelo direito à cidadania. Ao contrário dos mercenários, contratados a peso de ouro e sempre um risco para qualquer exército por terem sua lealdade motivada pela recompensa financeira que receberão se sobreviverem, esses jovens se dispõem a arriscar suas vidas por uma nova cidadania. Para o governo Bush esse é um verdadeiro achado. Os cidadãos norte-americanos enviados para a guerra são recrutados entre os marginalizados sociais, como bem demonstrou o documentário Fahrenheit 11/9, de Michael Moore, e aceitam lutar por verem aí a oportunidade de juntarem dinheiro para realizar seus sonhos pessoais. O problema que ainda persiste é que esses recrutas são cidadãos dos EUA e suas mortes podem gerar o surgimento de um movimento civil contra a guerra absurda. Alistar estrangeiros tem como benefício o recrutamento de contingente de soldados que podem ser "gastados" com mais prodigalidade, sem que seus parentes alimentem os movimentos sociais contra a guerra. Os EUA lutam em território inimigo e gastam um contingente soldados que só manterão vínculo e cidadania com os Estado Norte-americano em caso de sobrevivência à guerra. Assim sendo, preserva parte de seu próprio povo para preservar o governo da pressão dos movimentos civis.

O que leva um cidadão de um país a aceitar esse tipo de apelo? A lealdade, a solidariedade e o sentimento de pertencimento de um indivíduo para com o grupo social no qual nasceu não ocorre de maneira automática. Para nos sentirmos parte de um grupo temos que compartilhar a mesma cultura que esse grupo, seus valores, suas normas, suas maneiras de agir e pensar. Porém, isso não basta. É necessário que o indivíduo sinta reciprocidade nessa solidariedade para que possa sentir-se parte integrante do grupo. O indivíduo que não sente que o grupo social o recompensa adequadamente sente-se livre para se juntar a outro grupo.

Esse parece ser um sentimento presente na relação entre um número significativo de brasileiros e o Brasil que se manifesta, claramente, naquilo que é identificado como falta de patriotismo. O brasileiro desconhece os símbolos nacionais, não sabe cantar o Hino Nacional, não utiliza a bandeira do Brasil com regularidade. Se conhecer os símbolos nacionais é importante ou não para o fortalecimento da cidadania é uma outra questão que não abordarei aqui. Estou, apenas, me concentrando num sintoma que, em sua forma mais aprofundada, pode levar ao enfraquecimento da lealdade e da solidariedade para com a sociedade brasileira. O que o Brasil retorna em troca da devoção e lealdade que seu povo lhe dedica? O povo brasileiro recebe muito menos do que oferece. Trabalha em jornadas cansativas em troca de salários aviltantes assegurados por leis e incentivos proporcionados pelo Estado aos donos do capital. Paga impostos exorbitantes e recebe escolas em estado precário, sem professores, hospitais nos quais espera em filas vergonhosas e faltam água em luz, em dias de calor, e sobram alagamentos, em dias de chuva. Dessa maneira, como cobrar solidariedade desse povo?

O Brasil precisa criar condições para que seu povo se sinta solidário com a sociedade. Mas, o que é o Brasil e essa sociedade, se não seu povo e os indivíduos que a compõe? Essas condições, então, têm que ser criadas pelo próprio povo, em todos os seus segmento sociais. Para que essa situação possa mudar, torna-se necessário, antes de tudo, que esse povo passe a gostar-se mais e a acreditar mais em si mesmo. Um caminho possível seria incentivar o estreitamento dos laços de solidariedade e organização social e expandi-los para além da produção cultural e dos momentos de catástrofe, dirigindo-os para a atuação cotidiana. Solidariedade e organização tão presentes na hora de criar as escolas de samba e instituir o desfile de carnaval. Presentes, também, nas grandes festas comemorativas dos santos padroeiros, do Divino Espírito Santo, por exemplo, e que faz cidadãos arriscarem suas vidas para salvarem as de desconhecidos durante as tragédias tão comuns em nosso país, quase todas originárias do descaso e descompromisso do poder público para com suas atribuições.

O povo chamaria para si a responsabilidade pelas mudanças, ditando seus rumos segundo suas necessidades e desejos.

(*) Pedro Simonard, Ph.D, é Antropólogo, Cientista Político, Professor Universitário.

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