Pitada
do especialista
por Vinicius Barbosa(*)Shopping center X Centro empresarial: uma
parceria de sucesso
O que há por trás do resultado bem sucedido da
união entre os centros empresariais e os ditos 'templos de consumo'? Como essa
parceria surgiu, o que trouxe de benefícios e até onde isso vai evoluir? Para
tentar responder essas questões, é valido iniciar por um breve apanhado histórico sobre
o surgimento destes empreendimentos.
Há quem sustente a tese de que os shopping centers foram criados já na Antiguidade.
Outros afirmam que o primeiro surgiu a partir de 1800. Mas, foi na metade do
século passado que apareceram os primeiros empreendimentos, cujo 'way of life' americano
influenciaria definitivamente nos aspectos social e urbano das cidades brasileiras.
Na intenção de se dirimir incômodos de ordem meteorológica, falta de segurança,
escassez de vagas de estacionamento, o conforto proporcionado pelos shopping centers
conquistou o público brasileiro, que passou a vislumbrar uma realidade já não mais
encontrada em nossos cenários urbanos.
Com o constante crescimento do ramo, foi-se desenvolvendo também o nível de exigência
dos próprios frequentadores, o que fez migrarem os shopping centers a patamares acima do
de 'simples' templos de consumo: a partir de então, já ofereciam entretenimento,
serviços, gastronomia, estética, saúde...
Não muito diferente é a trajetória dos centros empresariais brasileiros. Grandes
ou pequenas empresas vêm preterindo os apertados - quando não obsoletos - e caros
imóveis situados nos centros das cidades. A carência de vagas e as mazelas mais
disponíveis a olho nu são outros fatores negativos que criam um sentimento de rejeição
dos empresários, os quais buscam os conglomerados funcionais, modernos, em via de regra
fora dos centros urbanos, e que por vezes chegam a ser financeiramente mais viáveis.
Tudo isso tem um reflexo no comportamento humano, pois as circunstâncias que
compõem todo o processo, que vai desde a condução utilizada até o ambiente em que o
funcionário trabalha, responderão a favor ou contra sua produtividade na empresa.
Em busca do grau máximo de excelência na prestação de serviços, os empresários do
ramo consumista encontraram uma maneira interessante de otimizar o fluxo de pessoas,
prevendo nas fases de criação ou expansão dos empreendimentos a inclusão dos 'business
centers', que podem ter um perfil heterogêneo, intermediário ou homogêneo de
integração com o corpo do shopping center. Essa otimização de fluxo acontece
quando o público de um compensa a escassez de outro. Ou seja, no horário comercial
o fluxo de um shopping center comum é naturalmente mais baixo que após as 18h.
Assim como um centro empresarial perde vida à noite, ocasionando um desperdício da
infraestrutura de serviços ('facilities') que só é usufruída no turno comercial.
A união tanto beneficia o aumento de público do shopping, quanto complementa com
as próprias atividades disponíveis nas lojas as necessidades de quem trabalha no
'business center', além de trazer-lhe (com o perdão do romantismo) mais vida.
Deve-se levar em consideração que climatização, segurança e estacionamento fazem
parte de uma composição em comum (centralizada), o que proporciona redução de gastos.
A performance do empreendimento também depende do perfil em que a parceria se enquadra.
O que teoricamente melhor responde é o homogêneo, tendo-se como exemplo o
shopping Downtown, no Rio de Janeiro. O arquiteto recriou o conceito de shopping de
rua, com lojas no pavimento térreo e salas nos superiores. Há uma gostosa
integração, onde o público dos escritórios e clínicas se confundem com os clientes
que estão comprando, somente passeando, ou em busca de diversão, gerando um fluxo
intenso e ininterrupto durante todo o dia. Já no Shopping Nações Unidas, em São
Paulo, cujas lojas situam-se no entablamento (base, conjunto horizontal) da construção,
adotou-se uma solução intermediária, na qual o público das salas também é 'obrigado'
a fluir pelos malls do shopping center, porém trabalha numa torre, que não os permite
observar o movimento de pessoas pelos corredores das lojas. E, de conceito
heterogêneo, o Centro Empresarial BarraShopping (inclusive os cariocas o conhecem assim,
distintamente) está fincado numa faixa de terreno desligada do bloco do shopping center,
o que não evita de os públicos se integrarem, porém inibe-os relativamente.
Independentemente de quais forem os motivos dessa nova tendência, sejam eles o aumento da
violência, o inchaço dos grandes centros, o caos viário, o aquecimento global, a
necessidade natural do ser humano pela praticidade, pelo moderno, pelo saudável; ou quais
os objetivos, sejam a redução de despesas diretas, indiretas ou subjetivas, melhora do
bem-estar dos funcionários, e por consequência da produtividade; tudo isso na verdade
só gera a certeza de que novos motivos surgirão, e outras soluções compensarão essas
carências ainda latentes. Hoje são os edifícios de escritórios. Já
existem também os hotéis. E amanhã? Amanhã poderão ser até mesmo
condomínios residenciais incorporados aos shopping centers.
A serem resolvidos pelos arquitetos, sempre em busca de mais uma parceria de
sucesso."
(*) Vinicius Barbosa é Arquiteto e Urbanista, com diversas premiações. |